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Uso excessivo de aplicativos fitness pode aumentar ansiedade e culpa, alertam especialistas

Jornal Panorama 2
13 de julho de 2026

Relógios inteligentes e outros dispositivos ajudam a estimular uma rotina mais ativa, mas a dependência das métricas pode transformar o cuidado com a saúde em fonte de pressão emocional

Aplicativos de atividade física, relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis passaram a fazer parte da rotina de milhares de pessoas em Goiás. As tecnologias permitem acompanhar passos, calorias, frequência cardíaca, qualidade do sono e desempenho durante os exercícios.

Embora essas ferramentas possam incentivar hábitos mais saudáveis e ajudar na criação de uma rotina ativa, especialistas alertam que o monitoramento constante também pode provocar efeitos negativos. Entre os principais riscos estão ansiedade, culpa, cobrança excessiva e comportamentos associados a transtornos alimentares.

Pesquisas indicam que acompanhar indicadores de desempenho ajuda parte dos usuários a manter a regularidade nos exercícios. No entanto, estudos também identificam relatos de sofrimento emocional entre pessoas que passam a depender excessivamente dos números apresentados pelos aparelhos.

Depois de uma década pesquisando o tema, especialistas destacam cinco fatores que ajudam a explicar por que essas ferramentas podem deixar de ser um incentivo e se transformar em um problema.

A pressão pela meta de 10 mil passos

Um dos principais exemplos é a popular meta diária de 10 mil passos. Apesar de amplamente adotado por aplicativos e relógios inteligentes, esse número surgiu em uma campanha publicitária realizada na década de 1960 e não representa uma recomendação científica universal.

Pesquisadores apontam que, para muitos adultos, aproximadamente 7 mil passos por dia já podem estar associados a benefícios importantes para a saúde. A quantidade ideal, porém, varia conforme idade, condição física, rotina e orientação profissional.

Mesmo assim, muitos usuários enxergam os 10 mil passos como uma obrigação. Quando a meta não é alcançada, podem surgir frustração, culpa e a sensação de que o dia foi improdutivo.

Sequências que viram obrigação

Outro fator está relacionado às sequências de dias ativos, conhecidas como “streaks”. Os aplicativos costumam premiar usuários que cumprem metas por vários dias consecutivos, utilizando alertas, medalhas virtuais e mensagens de incentivo.

O recurso pode ajudar na criação de hábitos, mas também pode gerar pressão para não interromper a sequência. Algumas pessoas continuam se exercitando mesmo quando estão cansadas, doentes ou precisam de descanso, apenas para preservar o histórico registrado pelo aplicativo.

Comparação constante

Os dispositivos também permitem compartilhar resultados e comparar o desempenho com amigos, familiares ou outros usuários. Apesar de esse recurso estimular algumas pessoas, ele pode provocar sensação de inadequação em outras.

A comparação desconsidera diferenças de idade, rotina, condição física, saúde e objetivos pessoais. Dessa forma, uma ferramenta criada para acompanhar a própria evolução pode se transformar em uma disputa permanente.

Calorias tratadas como números exatos

Outro ponto de atenção é o cálculo de calorias gastas durante as atividades. Os valores apresentados pelos dispositivos são estimativas e podem variar de acordo com o aparelho, o tipo de exercício e as características de cada pessoa.

Quando esses números são interpretados como dados exatos, o usuário pode tentar compensar alimentos com exercícios ou aumentar a intensidade dos treinos de maneira inadequada. Esse comportamento pode prejudicar a relação com a alimentação e com o próprio corpo.

Métricas acima dos sinais do corpo

Especialistas também alertam para o risco de as pessoas passarem a confiar mais no relógio do que nas próprias sensações. Cansaço, dor, indisposição e necessidade de descanso podem ser ignorados quando o aplicativo indica que ainda faltam passos, minutos de exercício ou calorias para alcançar a meta.

A tecnologia deve funcionar como ferramenta de apoio, e não como substituta da percepção corporal ou da orientação de profissionais de saúde.

O principal cuidado é observar como o uso desses dispositivos afeta o comportamento e o bem-estar emocional. Sentir ansiedade ao esquecer o relógio, culpa por não alcançar uma meta ou necessidade de compensar refeições com exercícios pode indicar que o monitoramento deixou de ser saudável.

Especialistas recomendam estabelecer metas flexíveis, respeitar os dias de descanso e evitar interpretar as métricas como regras absolutas. A atividade física deve contribuir para a saúde e a qualidade de vida, sem se tornar uma fonte permanente de cobrança.

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