
Cida Sanches
De acordo com registros da Câmara Municipal de Bonfim datados de 1866, os períodos de seca traziam mais do que escassez — muitas vezes, havia uma completa ausência de água, causando grande sofrimento à população. A estiagem prolongada obrigava os moradores a percorrerem longas distâncias em busca do recurso.
Nas famílias mais abastadas, essa tarefa era atribuída aos escravizados, que faziam várias viagens por dia para garantir o abastecimento de seus senhores. Já entre a população em geral, havia aqueles que cobravam por esse serviço, transportando a água na cabeça ou em carroças.
A água, geralmente armazenada em barris de madeira, era então dividida entre os moradores. Embora não haja registros específicos sobre a forma de entrega, é possível deduzir, com base em práticas comuns da época em outras cidades brasileiras, que os potes de barro eram deixados nas portas das casas para que os carroceiros depositassem a água previamente encomendada.
Essa realidade reflete não apenas as dificuldades enfrentadas naquele tempo, mas também os costumes, a desigualdade social e a engenhosidade das soluções encontradas pela comunidade para sobreviver em meio à seca.
Um relato datado de 10 de setembro de 1876 revela a atuação das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito não apenas em questões religiosas, mas também em assuntos sociais e até políticos. Na ocasião, foi necessária a intervenção das autoridades locais para garantir a preservação da água do chafariz, construído em 1868.
O documento determinava que aqueles que haviam feito roças nas matas de Nossa Senhora do Rosário, por onde passava o rego de água do lado esquerdo do córrego, seriam obrigados a manter o canal limpo, livre de entulhos e de animais. Além disso, os irmãos que utilizassem essas áreas para retirar madeira deveriam se entender com os procuradores das irmandades e pagar pela madeira retirada, sob pena de serem expulsos das matas.
A medida também estabelecia que, após o aproveitamento das roças já existentes, seria proibido abrir novas roças no lado esquerdo das matas, com o objetivo de preservar o córrego que abastecia o chafariz. Esse cuidado mostra a importância que o abastecimento de água já tinha naquela época e como as instituições religiosas também se envolviam ativamente na gestão dos recursos naturais e na organização comunitária.
Essa construção tem 141 anos e remonta à época em que Augusto Ferreira França era presidente da província. Naquele período, já havia uma preocupação com a preservação das matas ao redor do açude, sendo estabelecida a proibição de retirar madeira ou abrir roças acima dele, visando proteger a nascente que abastecia o chafariz.
Com a construção do chafariz, a população de Bonfim passou a ter acesso mais fácil e rápido à água, embora ainda fosse necessário esforço físico para transportá-la até as casas. Na época, ter um chafariz era símbolo de prestígio: cidades que possuíam essa estrutura eram vistas como importantes, pois sua presença representava riqueza, organização e poder.
O chafariz tornou-se um importante ponto de convivência social na cidade. Era comum que o local servisse para longas conversas, encontros casuais, fechamento de negócios ou simplesmente como espaço de lazer e passeio. Também era um ponto de encontro entre os escravizados, que vinham até ali buscar água para suas casas ou para os patrões.

O reservatório era abastecido por uma nascente localizada na mata do Ginásio Anchieta, conhecida na época como “Biquinha”. Para garantir que a água chegasse o mais limpa possível ao chafariz, ela percorria um trajeto por cochos de madeira ao longo de toda a extensão.
O chafariz, construído no Largo do Rosário — atualmente Praça do Rosário — possuía várias bicas pelas quais a água fluía continuamente. O trajeto da água passava por pontos hoje bem conhecidos: o bairro Nossa Senhora de Fátima, a Praça Moisés Santana, e os fundos do antigo quintal do senhor Valter Ramos (Valtinho), casado com dona Ana Caixeta Ramos, onde atualmente está plantada uma grande castanheira, cuja muda veio do Pará.
Vale destacar que esse quintal pertence à casa onde funcionou o antigo Colégio Bonfinense, que foi propriedade de Nico Eusébio, pai do historiador e político Americano do Brasil. Segundo relatos orais, foi por esse caminho que a água seguia até ser depositada no chafariz, cortando a atual Avenida Mário Ferreira. Essas informações não estão registradas em documentos oficiais, mas foram compartilhadas em uma conversa informal com o senhor Valter Ramos (Valtinho), antigo morador do local.
Atualmente, o que restou dessa importante construção é parte de um muro, onde ainda é possível ver inscrições e o desenho da coroa do Imperador Dom Pedro II. Esse muro representa não apenas um marco da antiga Bonfim, mas também carrega os hábitos e costumes dos nossos antepassados.
A construção do chafariz foi, sem dúvida, um feito significativo, mas não alterou de imediato os costumes da época. Apesar do acesso mais fácil à água, era comum entre os bonfinenses — assim como em todo o Brasil colonial — tomar apenas um banho por semana, geralmente aos sábados, quando também se trocavam as roupas íntimas. O hábito do banho diário só começou a se consolidar por volta da década de 1930, quando as casas passaram a ser construídas com banheiros internos, facilitando a higiene pessoal e marcando uma nova fase nos costumes da população.

Foi graças à atuação de Dom Emanuel que Silvânia passou a contar com água encanada e energia elétrica, por ocasião do início das obras do Ginásio Anchieta, em 1925. Até então, a maioria das residências não possuía banheiros com sanitários. Os banhos eram tomados em bacias ou banheiras, e as necessidades fisiológicas eram feitas em penicos ou em privadas construídas nos fundos dos quintais.
Com o tempo, a população começou a perceber os benefícios que a água encanada proporcionava ao dia a dia doméstico. No entanto, a modernidade tinha seu preço, e nem todos podiam arcar com os custos desse conforto. Como alternativa, muitas famílias ainda utilizavam cisternas — poços de onde a água era retirada com baldes presos a cordas.
Além do esforço físico necessário para obter a água, as cisternas também apresentavam riscos. Deixá-las abertas em casas com crianças, por exemplo, podia resultar em acidentes graves ou tragédias. Ainda assim, essa realidade fez parte da rotina de muitas famílias silvanienses por décadas, até que o acesso à água tratada e encanada se tornasse mais comum e seguro.