Assisti à minissérie e fiquei impactado, especialmente pelo segundo episódio (fique tranquilo, não darei spoiler). O grande questionamento para as personagens é tentar entender como um garoto tão jovem, vindo de uma família “normal” (pai, mãe e irmã), pôde se tornar um assassino tão violento. Não consta que ele tenha sofrido qualquer trauma, que tivesse pais violentos ou que brigassem demais. Nada disso. Pais dedicados, uma vida sem grandes tribulações.
A explicação vai se desenhando como resultado de uma influência a que ele foi submetido pela internet. Os pais ficavam tranquilos porque afinal ele estava em casa, “protegido”, sem saber que ali, na internet, corria mais risco do que se estivesse na rua.
A série se tornou fenômeno mundial e tem levantado discussões em grupos de pais e de educadores – e é pra esse ponto que eu gostaria de chamar a atenção. Uma obra de arte tem o poder de mexer com as estruturas, de fazer pensar, de chamar a atenção para pontos que passavam ignorados, despercebidos.
Ao chamar a atenção para o perigo a que nossos jovens e crianças estão expostos na rede, Adolescência presta um enorme serviço à sociedade. Precisamos discutir regulação das redes. Não podemos ficar reféns dos interesses dos bilionários proprietários das chamadas big techs, ou gigantes de tecnologia, para quem não interessa a verdade, mas os cifrões apenas.
Não é à toa que os obscurantistas temem a arte – porque ela tem o poder de abrir mentes, de fazer pensar, de tirar da zona de conforto, de desenvolver o pensamento crítico – e a eles, obscurantistas, não interessam pessoas capazes de pensar por si próprias porque a essas é difícil conduzir. Adolescência faz isso, faz pensar, incomoda, desequilibra.
O segundo episódio, que eu disse que mais me impactou, se passa na escola onde o assassino e a vítima estudavam. Dois policiais vão à escola pra tentar entender o que aconteceu. E o que a série mostra é perturbador. É como se adultos e jovens vivessem em universos diferentes. Na verdade, é assim. E os jovens estão vulneráveis, indefesos, justamente porque ignoram onde está o perigo.
Precisamos da arte como caminho de emancipação, sensibilização, humanização – isso mesmo: humanização. Estamos, agora mais do que nunca, nos distanciando de nossa essência humana. A palavra “desumano” tem feito muito sentido quando ligada a certos comportamentos “normais” da nossa sociedade hoje. A arte é pra ser degustada, apreciada com a emoção.
Ela não precisa de finalidade prática. Sob a perspectiva imediatista e pragmática que permeia o pensamento obscurantista, a arte é inútil, não tem valor prático. Longe disso, porém, ela toca as fibras da alma, desperta nossa essência humana e nos permite desenvolver nossa individualidade, fugindo do individualismo egoísta.
Assista Adolescência, se você ainda não viu, mas, sobretudo, aprecie obras de arte de qualquer natureza. Isso te faz, nos faz, humanos.