Goiânia – Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), em parceria com a Embrapa Cerrados, revelou que o pequi e outros frutos nativos do bioma Cerrado possuem maior teor de proteínas do que diversas frutas amplamente consumidas no Brasil, como banana, maçã e mamão. A pesquisa, publicada na Revista Brasileira de Agroecologia, analisou 22 espécies típicas do Cerrado e destacou o valor nutricional desses alimentos muitas vezes ignorados fora das regiões onde são nativos.
O pequi, fruto símbolo da culinária goiana, apresentou 1,8 grama de proteína a cada 100 gramas de polpa, quantidade consideravelmente superior às 0,3g da maçã, 1,1g da banana e 0,9g do mamão, conforme dados da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO). Além disso, o fruto mostrou-se rico em gorduras boas, carotenoides e antioxidantes, o que o torna ainda mais promissor para dietas voltadas à saúde e ao fortalecimento do sistema imunológico.
Outros frutos analisados, como araticum, buriti, cagaita, bacaba e jatobá, também registraram índices proteicos elevados, superando inclusive algumas leguminosas no quesito densidade nutricional por porção. Para os pesquisadores, esses dados são mais uma prova de que a biodiversidade do Cerrado guarda um potencial alimentar e funcional que ainda é pouco valorizado nas grandes cidades e nos sistemas de produção em escala nacional.
A pesquisa também acende um alerta sobre o risco de desaparecimento dessas espécies, em razão do avanço do desmatamento e da monocultura no Cerrado, que já perdeu cerca de metade da sua cobertura vegetal original. A falta de políticas públicas para a proteção do bioma e incentivo à produção sustentável desses frutos compromete não apenas a preservação ambiental, mas também o acesso a alimentos de alto valor nutricional.
Mesmo assim, algumas comunidades tradicionais e cooperativas têm conseguido manter viva a cultura do extrativismo sustentável. Em diversas cidades do interior de Goiás, Minas Gerais e Tocantins, é comum encontrar derivados de frutos do Cerrado, como óleos, farinhas, doces, licores e polpas congeladas. A pesquisadora Lívia Caldas, nutricionista envolvida no estudo, ressalta que a inclusão desses alimentos na alimentação cotidiana pode contribuir tanto para a saúde da população quanto para a geração de renda de comunidades locais.
Ela defende que o Cerrado seja visto não apenas como um bioma a ser preservado, mas como uma fonte estratégica de alimentação saudável e diversa, com potencial para combater a insegurança alimentar e ampliar o acesso a nutrientes de qualidade. “Quando falamos de soberania alimentar, precisamos olhar para aquilo que a natureza já nos oferece, com abundância e riqueza nutricional. O Cerrado é um tesouro que ainda estamos aprendendo a decifrar”, conclui a pesquisadora.